A primeira travessia Ilha Montão de Trigo foi um espetáculo.  Muitos queriam fazê-la. Muitos sonharam com a conquista, apenas oito chegaram lá.

O dia 26 de novembro do ano de 2018, uma segunda-feira ficará marcado para sempre na memória dos guerreiros do mar. Permita que os chame de “Tubarões dos Mares”, porque este é o título mais digno para os que arriscaram suas vidas para serem os pioneiros da maior prova de natação em águas abertas do Brasil.

E quem foram estes espartanos de nossos dias?

George Silva, Magnum Dias, Wagner Miranda, João Samuel, Mauro Henrique, André Ortega. Victor Sano e Daniel Bernardes.

Digo que arriscaram suas vidas porque o dia amanheceu em Boraceia, bairro da cidade de Bertioga, aqui em São Paulo, nublado, chovendo, com vento e mar agitado. O Alexandre, que faria o apoio com um caiaque, logo sentiu a força do mar quando tentou entrar e foi arremessado de volta a praia na primeira tentativa de furar a barreira de ondas.

Após uma breve oração feita por mim, os Tubarões dos Mares, foram em busca de furar o bloqueio das ondas e alcançar mar calmo para começarem a nadar de verdade. Depois de uns 15 minutos lutando contra as fortes ondas e correntezas, todos lograram passar as mesmas e começaram a nadar em direção a ilha Montão de Trigo. O grupo de atletas combinaram nadar em bloco, a fim de aumentar a segurança contra ataques de tubarões, porém  as marolas que passavam dos dois metros de altura logo separou o grupo e formaram-se três equipes isoladas.

Na primeira estavam Victor Sano e André Ortega. Na segunda, Wagner Miranda, Daniel Bernardes e João Samuel e na última estava eu, o Mauro Henrique e Magnum Dias.

Na primeira estavam Victor Sano e André Ortega. Na segunda, Wagner Miranda, Daniel Bernardes e João Samuel e na última estava eu, o Mauro Henrique e Magnum Dias.

A nossa separação criou um problema de logística difícil de ser resolvido. Ocorre que estávamos acertados com pescadores de termos dois barcos de apoio, uma lancha de pesca e uma moto-aquática dos bombeiros. Se esse apoio tivesse comparecido, haveria facilidade em acompanhar os três grupos de atletas com o fim de protegê-los e fornecer comida e água. Acontece que devido ao mar estar virado, a lancha e um dos barcos não entraram no mar. Ficou apenas nosso fiel apoiador, o Wilson Cunha, conhecido entre nós como “alemão” que corria de um lado para outro, a fim de cercar os atletas e protege-los. Também estava no mar o João Samuel com uma moto aquática do Corpo de Bombeiros de Bertioga, cedida gentilmente pelo seu Comandante, o Ten Ivo Sapienza.

Para nadarmos os 14 km de mar aberto entre a praia de Boracéia, no bairro praiano da cidade de Bertioga, em São Paulo, até a ilha Montão de Trigo, localizada em São Sebastião, fizemos um plano de realizar 7 paradas para alimentação. A primeira com uma hora, a segunda com 40 minutos, a terceira também com 40 minutos e 4 paradas com 30 minutos.

O meu plano de alimentação era o seguinte: as primeiras 3 paradas, só água, Na 4ª parada energéticos naturais e água de coco, o mesmo nas 3 restantes.  Então, fatos mais interessantes, incríveis e fora de controle começaram a acontecer.

Primeiro, minha esposa Francis, que iria ajudar como apoiadora no barco do “alemão”, juntamente com Júnior, Danilo e Beatriz, devido as enormes marolas do mar, passa mal, enjoa muito, o mesmo ocorrendo com a Beatriz. Esse episódio obriga ao único barco que entra no mar conosco, contendo as mochilas dos atletas com os kits de alimentação a retornar ao continente para desembarcar as mulheres.

Segundo fato imprevisível, a moto-aquática do Corpo de Bombeiros começa a  entrar água pelo casco, fazendo com que o nosso segurança principal, o João Samuel, fique em situação difícil para atender os três grupos de atletas que estavam espalhados no mar.

João Samuel foi obrigado a retornar ao posto do Corpo de Bombeiros na praia de Boraceia a fim de deixar a moto e pegar o barco inflável. Porém, experiente em serviço de salvamento no mar, teve a cautela de só fazer isso após o retorno do barco do alemão.

Quando retornaram o Junior, o Danilo e o alemão, recebi uma dose de energético e água de coco. O mesmo acontecendo com o Magnum e o Mauro Henrique. Neste momento já estávamos com aproximadamente 6 km de percurso vencido.

Em seguida eles aceleram e se lançam nas cristas das ondas em busca dos outros atletas. Seguimos nadando no ritmo do sobe e desce do mar azul marinho simplesmente encantador, tendo sobre nós um céu encoberto e cinzento, prometendo chuva a qualquer hora. Por volta das 10 horas, olhamos para a ilha e nada podia ser visto. Uma nevoa baixou e escondeu por uns instantes o nosso alvo. Foi uma sensação estranha, arrepiante ver o mau tempo tirando-nos nosso porto seguro.

Nossas braçadas e pernadas nos empurravam mais e mais para vencermos o tão sonhado desafio. Tivemos mais uma visita da equipe de apoio. Tomamos água, comida e energético. A seguir o barco segue para alimentar os demais atletas, no caso o Wagner Miranda, o André Ortega, o Victor Sano e o Daniel Bernardez, Eu e o Magnum só não sabíamos que seria a última vez no dia que teríamos a visita do barco de apoio. Marcamos que retornasse dentro de 30 minutos para nos alimentarmos pela quinta vez, porém o tempo passou e não vimos mais a embarcação.

O que aconteceu foi que tendo que apoiar atletas muito distantes uns dos outros, fez com que o barco nos perdesse de vista, tanto pela distância entre nós como também pelas ondas de quase três metros que dominavam o mar naquele momento.  Às 10:40 devíamos receber a visita da equipe apoiadora e esta não chegou. Eu e o Magnum vasculhamos o mar em busca de sinal do barco. Esperamos, esperamos e nada. Estávamos agora com aproximadamente 9 km. Restavam ainda 5 km e como prosseguir sem água e comida¿. Mas não havia outra saída. Voltar, impossível. Avançar era o ato de fé mais correto.

Magnum puxava o ritmo e eu o acompanhava o mais próximo que podia. Ele sempre parava e perguntava como eu estava me sentindo. Achei que não ia adiantar nada naquele instante informá-lo que estava com câimbras na perna direita. Não havia nenhum barco para me socorrer. Preferi suportar a dor e seguir. O que me animava era ver a ilha crescer cada vez mais na minha frente. Nadamos mais 30 minutos e paramos outra vez para escutar a aproximação do barco de apoio. Nada, apenas o som agradável das ondas batendo em nossos corpos já frios e exaustos de tanto nadar. 11,5 km foram deixados para trás. A ilha estava cada vez mais próxima e crescia aos nossos olhos. Maravilhosamente linda e agora a apenas uns 3,5 km. O cansaço e as dores na perna direita sumiam cada vez que conseguia ver a ilha mais e mais nítida. Um sopro de adrenalina era injetado no corpo. A alma começava a respirar aliviada, sentindo que o sonho estava quase nas mãos.

Magnum sempre ao meu lado, outras vezes, um pouco à frente, mas sempre perguntando se tudo estava bem comigo. Acho que Deus o separou para ser meu parceiro nesta jornada oceânica. Então chegamos a marca de nadar 13 km e a ilha estava com seu contorno nítido. Víamos árvores, pedras e as ondas quebrando nas encostas. Logo avistamos o trapiche onde devíamos aportar. Ouvimos os gritos do André Ortega, do Miranda, do Bernadez e do Victor Sano, que tinham chegado aproximadamente uma hora antes.

Eram os últimos instantes no mar. O Magnum seguiu com braçadas fortes e foi aos poucos me deixando para trás.

Muito cansado, porém animado com o alvo a ser conquistado logo em frente, relaxei um pouco e comecei a ver que não estava mais sozinho. Olhando através da água translúcida que contorna a ilha, vi no fundo cardumes de peixes e corais multicoloridos. Extasiado por esta beleza submarina, dei minhas braçadas finais e alcancei o trapiche de toras brutas que permite o desembarque na ilha.

Às 13 horas e 05 minutos do dia 26 de novembro de 2018, depois de nadar quase 14 km no tempo de 04 hs e 21 minutos, completo a Primeira Travessia ilha Montão de Trigo. Nesta ilha, por doação do vereador Eduardo Pereira, com a intervenção de André Ortega e Beatriz, recebo um troféu e uma medalha de honra ao mérito, as quais também foram entregues aos meus companheiros, os “Tubarões dos Mares”, os guerreiros espartanos dos tempos modernos.

Meus sinceros agradecimentos à equipe de apoio composta pelo Corpo de Bombeiros, na pessoa de seu Comandante em Bertioga, Tenente Ivo Sapienza, fornecendo a moto-aquática e o barco inflável, pilotados pelo nosso atleta João Samuel e seu companheiro de trabalho, o Marcos.

Também à equipe que estava no barco: Júnior Constantino, Beatriz, minha esposa Francis, Danilo e especialmente ao Wilson Cunha, o “alemão”, que sem sua desmedida colaboração, o evento não teria acontecido. Preciso ainda agradecer ao Marcos, que pilotava o barco inflável do Corpo de Bombeiros.

Agradeço sobre tudo ao Senhor dos Exércitos, ao Rei dos Reis e meu Salvador Jesus Cristo, que designou um pelotão invisível de anjos para nos guardar e animar em todas as etapas deste esplendoroso evento marinho.

À Deus toda honra e glória por esta inacreditável vitória.  Até a próxima meus “Tubarões dos Mares”. Contem sempre comigo.