A 2ª Travessia Ilha Montão de Trigo foi anunciada durante um bom tempo no Swim Channel. Por lá não apareceram os atletas suficientes para montar um evento de grande envergadura, com barcos grandes e escunas de apoio. Em razão disso, cancelei as inscrições na Swim Channel, mas alguns atletas por email manifestaram grande interesse de fazer a travessia. Em atenção a esses, resolvi fazer a prova no modo “espartano”, ou seja, como tubarões humanos dispostos a vencer o que vier pela frente.
Assim, consegui reunir 11 atletas, sendo 08 inscritos oficialmente e 03 convidados. Os inscritos foram:
Soraya Agostini (49),
Daniel Biagio (37),
Guilherme Astolfi (50),
Carlos Barros (54),
Felipe Bogéa (37),
José Câmera (58),
Wagner Temugin (50) e
Henrique Garcia (43)
Os atletas convidados foram:
André Ortega (28),
Victor Sano (36) e
Guilherme Mascarenhas (32).
Após analisar o perfil esportivo de cada atleta, composto por anos de participação nas principais provas em mar aberto no Brasil, como a Fuga das Ilhas, Volta do Parcel, Travessia do Canal de Ilha Bela, a famosa 14 Bis, Rei e Rainha do Mar, entre tantas outras, conclui que o grupo que pretendia realizar a 2ª Travessia da Ilha Montão de Trigo viria determinado a fazê-la a qualquer custo.
Quando os avisei que seria uma travessia à moda espartana estava referindo-me a pouca estrutura de apoio, composta apenas de 02 barcos, uma vez que o dinheiro pago pelas inscrições de 08 atletas e 03 convidados, não seria suficiente para ter a disposição uma estrutura maior. Todos aceitaram e combinamos fazer dois grupos, um Avançado e outro Especial, sendo o Avançado composto pelos atletas mais fortes e o Especial com aqueles que achavam que seriam mais lentos no percurso. Isto foi colocado no Regulamento da Travessia. Porém, quando nos reunimos às 06:00 hs da manhã do dia 09 de fevereiro de 2020, um domingo de céu claro na praia de Bora Bora, São Sebastião, São Paulo, em consenso ficou decido que nadaríamos a travessia como um único grupo, com cada atleta procurando apoiar e incentivar o colega mais fraco a completar a prova.
Embarcaram no barco preto, o maior, pilotado pelo Alemão os seguintes atletas:
Soraya Agostini
Guilherme Astolfi,
Henrique Mascarenhas,
Henrique Garcia,
Wagner Temugin e
Daniel Biagio.
Apoiadora Manuel Rodrigues.
No barco vermelho embarcaram:
Felipe Bogéa,
André Ortega,
Carlos Barros e
Victor Sano.
Entrou como apoiador o Grégori Marcelino.
Com este grupo selecionado de nadadores, deixei a praia de Bora Bora rumo à enseada da Ilha Montão de Trigo.

"Tubarões Humanos" da 2ª Travessia Ilha Montão de Trigo!

Depois de uns 15 minutos de viagem, nossos barcos foram cercados por um cardume de golfinhos brincalhões que saltavam por todos os lados, como quem esta avisando que aquelas águas pertencem a eles. Porém, todos tinham uma aparência dócil e gentil.
O Balé dos Golfinhos durou cerca de 10 minutos, e eles seguiram na direção sul, rumo da África. Alguns a bordo comentaram que só por ter visto estes belos animais marinhos já tinha sido válido o esforço de estar nesta travessia.
Com uns 40 minutos de viagem alcançamos a enseada da Ilha Montão de Trigo. O mar em volta da mesma estava calmo, como uma piscina gigante a nos envolver. A temperatura da água em torno dos 27 graus e uma correnteza suave nos levando na direção sudeste. Eram 07:10 da manhã. Pedi que todos saltassem dos barcos para a largada que seria do trapiche da ilha. Em poucos minutos já estávamos reunidos sobre as travessas de toras rústicas do mesmo. Alguns atletas aproveitaram para mergulhar nos corais que compõe o acervo marinho deste paraíso em forma de mar. Quando meu relógio marcava 07:20 hs, após uma oração pedindo a ajuda dos anjos de Deus para suportar as dificuldades que surgissem no percurso, dei o sinal de largada. Todos partiram animados a chegar nadando na praia de Bora Bora aproximadamente 12 km de mar aberto.

Na enseada da Ilha Montão de Trigo

Nosso combinado é que teríamos 04 paradas para hidratação e alimentação: com 60 minutos, depois com 40. Outra com 60 e mais uma com 40. Quem não chegasse neste tempo seria reabastecido a cada 30 minutos. Também cancelamos o tempo máximo de prova de 05:30 hs, ficando acertado que a prova acabaria somente quando o último atleta chegasse em Bora Bora.
Demorei uns cinco minutos a sair da ilha. Tempo suficiente para ver que os atletas não estavam cumprindo o acordo de nadar num grupo só. Como o mar estava muito calmo, sem nenhuma onda ou vento no momento da largada, acredito que os mais fortes acharam por bem não ficar preso aos mais lentos e partiram dispostos a baterem seus recordes pessoais para esta distância. Esta foi a impressão que tive inicialmente quando vi que se dispersaram bem rapidamente.
Com uns trinta minutos nadando, alcancei o mais lento do grupo que partiram com ânsia de engolir o mar até Bora Bora, Carlos Barros.  A partir dai formamos uma dupla e começamos a nadar lado a lado. Vi muitos cardumes de peixes coloridos embaixo de mim. Nadamos em mar de brigadeiro durante os primeiros 60 minutos e, conforme o previsto, paramos para comer e se hidratar. Nos barcos de apoio tínhamos água, maçã e banana prata. Cada atleta também preparou o seu kit particular de alimentação.
Após a primeira parada, eu e o Carlos Barros continuamos no mesmo ritmo, um conseguindo ver as braçadas e pernadas do outro por baixo d água. Nadamos mais 40 minutos e outra vez paramos para beber e comer banana com maçã. No barco vermelho que nos acompanhava estavam o apoiador Grégori e o José do Mar, na pilotagem. Comi e fiz alguns alongamentos. Carlos Barros também e saímos para a próxima etapa de uma hora. Olhando a frente ainda conseguia ver um mar calmo, com ondas suaves, ventos brandos. O único obstáculo era uma correnteza que nos arrastava na direção de São Sebastião, tomando como referência a Ilhas das Couves. Procurava no horizonte o outro barco de apoio e vi que ele estava bem longe. Notei que não seguia um rumo único, indo para um lado e outro do caminho melhor que leva a praia de Bora Bora. Entendi que os atletas haviam se dispersado muito. Vi um que seguia na direção da praia de Barra do Una e dois que tomaram o rumo do Cantão do Indaiá. Razão esta que fazia o barco maior, sob o comando do Alemão e da apoiadora Manuela Rodrigues, ficarem cruzando para um lado e outro, a fim de suprir mantimentos. E foi neste momento, em que não havia coesão no grupo, ou seja, a maioria nadava sozinho, aproximadamente as 10 hs da manhã, que começou a soprar um vento Sudeste de forte intensidade, fazendo as ondas crescerem quase dois metros e a correnteza aumentar, puxando todos novamente na direção da ilha.
A 2ª Travessia Ilha Montão de Trigo, que os golfinhos pareciam anunciar como um “simples passeio no mar”, figurava-se agora como uma luta ente Davi e Golias, sendo nós os representantes de Davi e o mar, com ondas grandes e ventos fortes, o Golias.
Logo os braços e pernas começaram a sentir uma maior dificuldade em vencer as ondas. O esforço para avançar era espartano, heroico. Quando nosso barco saiu para dar apoio ao Daniel Biagio voltou com o mesmo dentro, o qual nos disse que começou a vomitar dentro d’água e não estava mais conseguindo varar as ondas fortes. Em seguida o nosso piloto recebeu uma ligação do outro barco, dizendo que estava recolhendo todos do mar, porque estava impossível de continuar a travessia. Então ele nos avisou e pediu que eu e o Carlos Barros também abandonássemos a prova. Era o sensato a fazer tendo em vista o quesito segurança.
O Carlos Barros, sentindo que não estava progredindo como fazia antes do mar se enfurecer, saltou para o barco de apoio. Então fiquei só e disse para o barqueiro que podia ir embora para a praia que eu iria lutar contra aquele mar até alcançar a praia nadando. Ele não atendeu, dizendo que não podia me abandonar ali sozinho com as ondas bravias. Nadei um pouco mais e quando parei para tomar água ele me avisou que eu não tinha progredido nada. Na verdade a correnteza estava me puxando outra vez na direção da ilha. Comecei a desanimar. O sonho de realizar a 2ª Travessia Ilha Montão de Trigo estava por terminar. Todos os treinamentos anteriores e as estratégias de alimentação e paradas de descanso, não eram suficientes para vencer aquelas ondas. Porém, antes de subir no barco e declarar-me desistente, olhei para a Ilha das Couves e percebi que apesar dos infortúnios contrários, eu havia avançado um pouco. Logo meu ânimo voltou e disse ao piloto do barco de apoio que ia continuar. Então ele me disse ter recebido um novo telefonema do Alemão dizendo que todos haviam desistido e só eu estava insistindo em vencer a muralha formada pelo vento, correntezas e ondas.
Este telefonema foi um balde de água fria em minhas intenções. Se, segundo ele, todos já tinham sido recolhidos do mar e estavam se dirigindo para a praia de Bora Bora, não havia mais motivo para que eu, como Organizador do evento, ficar ali desafiando a fúria do mar. Então, muito a contragosto, subi no barco e dei por encerrada a prova. Pedi que fossemos direto para praia e faria a entrega dos kits de participação aos atletas.
Seguimos uns 10 minutos e resolvi levantar-me na proa e ver as ondas bravias que venceram meus “Tubarões Humanos”, título que dou a todo atleta que faz a Travessia Ilha Montão de Trigo. Tive então uma surpresa: enxerguei uma boia amarela a minha esquerda, a uns 500 mts. Pedi ao barqueiro que rumasse para lá. Quando chegamos encontrei o Felipe Bogéa que lutava bravamente com as ondas. Decidi voltar a nadar, pulei do barco e fomos juntos até o tempo que não tinha mais forças para seguir no seu ritmo. Fui ficando para trás e, de repente, me vi sozinho lutando com as ondas. Nadei um bom tempo sem ver o barco de apoio ou qualquer atleta. Nadando com o resto de energia, cheguei ao través da Ilha do Maracujá, de onde já se consegue ver uma pontinha da praia de Bora Bora, o outro extremo desta prova. Porém, vi que estava faltando água para os músculos e neste momento chega o barco do Alemão, trazendo-me água, frutas e hidratantes. Tomei apenas meio litro de água e segui animado que iria conseguir terminar o resto do percurso. E assim aconteceu.
Cada braçada me aproximava mais e mais de Bora Bora. Também a presença constante do barco do Alemão neste momento final, me animou muito. Ele ainda me passou orientações sobre as correntezas na entrada da praia. Passada a Ilha do Maracujá, ingressei no costão do Bora Bora e a seguir na enseada da praia. Agora a concretização do sonho estava somente a algumas braçadas. Foi com muita alegria que consegui ver pessoas na praia e também o barulho e o quebrar das pequenas ondas de Bora Bora. Olhei no relógio e marcava 05:48. Enfim, cheguei, meus dedos tocaram as areias brancas de Bora Bora. Missão cumprida e registrada pela câmara do celular do Júnior Constantino, meu irmão na fé e amigo fiel.
Depois foi uma alegria saber que nem todos haviam abandonado a prova. Em realidade, nenhum dos que largaram na enseada da Ilha Montão de Trigo teve qualquer derrota. O fato de se candidatarem a vir para este desafio, já os torna mais que vencedores. E foi com muita satisfação que entreguei a cada um o seu digno e honrado troféu de “campeão e campeã da II Travessia Ilha Montão de Trigo”, porque a Soraya Agostini foi a primeira mulher a vir em busca deste sonho. Meus sinceros parabéns a todos e muito mais a Deus por manter todos vivos em um mar tempestuoso.
Até a III Travessia...

Premiação dos campeões!