Dormi mal. Acordei constantemente, preocupado com o horário. Estava ansioso pela aventura e desafio que tinha no dia seguinte. Fui o primeiro a chegar na praia de Bora Bora. O mar estava liso e o céu limpo. Um convite para nadar.
Aos poucos os nadadores foram chegando. Pessoas animadas, simpáticas, ansiosas pelo que o dia guardava. Fiquei especialmente feliz em rever o Victor Sano e o Ortega. O Victor é um nadador experiente e foi muito gentil em compartilhar suas experiências comigo sobre a 14 Bis. O Ortega foi meu apoio na 14 Bis. Ele foi mais que um apoio. Foi um incentivador e parceiro fundamental naquele que foi, por enquanto, meu maior desafio aquático. Nadar ao lado deles seria um prazer.
Pegamos nosso barco e fomos em direção a Ilha Montão de Trigo. Na metade, avistamos um cardume de golfinhos (aproximadamente uns 30). Eles se aproximaram dos nossos barcos e nos acompanharam por alguns minutos. Foi um espetáculo maravilhoso! Golfinhos colados no barco, saltando, nadando, brincando. Lindo de ver e me remeteu a um momento mágico que tive em Fernando de Noronha quando, ao mergulhar, encontrei com eles em baixo d`água. Esse espetáculo, para poucos, já valia e muito o passeio.
Chegamos a ilha. Logo pulei do barco, para ver o fundo. Água limpa, cheia de peixes e corais. Aproveitei uns minutos para fazer um rápido mergulho. Tiramos a foto do grupo e começamos a nadar. O mar estava liso. Nadei a primeira hora em um ritmo leve e aproveitando as condições favoráveis. Com uma hora o barco da frente parou e o grupo reagrupou. Batemos umas fotos, falamos como seria tranquila a travessia: mar calmo, vento favorável. Mal sabíamos o que tínhamos pela frente.
Recomeçamos a nadar. Um grupo de 3 ou 4 saiu na minha frente e eu fui tentando acompanhar o Victor. Depois de uns 10 minutos já não via mais ele, nem o barco. Tampouco via alguém atrás ou o barco de trás. Pensei: ainda bem que tenho minha bóia de companhia. Daqui a uns 30 minutos a turma para novamente para alimentar e reagrupamos. Passou mais 50 minutos e nada de ver nadador, barco ou qualquer coisa na superfície. Comecei a xingar o barqueiro e sentir a sede pegando. Por fim, o barco apareceu. Aproveitei para fazer uma boa re-hidratação, porque faltavam uns 6 quilômetros ainda. Naquele momento, já tinha entendido que seria uma travessia quase solo.
O fato de nadar tanto tempo sozinho no “meio do mar” trazia um certo medo, mas também uma sensação de liberdade e de desafio ainda maior. Não tinha opção, a não ser nadar e aproveitar o visual. Estava concentrado na natação, quando senti um cutucão na minha panturrilha. Não sei como, mas dei um “duplo twist carpado”, chutei e virei de costas, tudo ao mesmo tempo. Quase me caguei todo! Ao olhar para trás e para baixo não vi nada. Só senti meu coração disparado: “deve ser minha bóia e minha imaginação”, pensei. Uns 3 minutos depois o mesmo cutucão. Dessa vez, continuei nadando e abaixei a cabeça para olhar minha panturrilha. Vi um cardume de uns 10 peixes (de uns 30 cm cada) nadando bem rente as minhas pernas. Ufa! Não estava delirando, nem era alguma criatura assustadora. Podiam estar se escondendo de um peixe maior? Bem, não tinha o que fazer. Continuamos nadando juntos por uns 40 minutos. De tempos em tempos, eles me cutucavam e eu dava umas pernadas em represália.
Quando já tinha passado meu susto dos peixes. Olho pro lado e vejo algo bem maior: Golfinho?! Não! era o Ortega que apareceu sei lá da onde. Nadamos um pouco juntos, o barco apareceu e re-hidratamos. Depois, como ele apareceu, ele sumiu. Pena que a companhia durou pouco.
Já estava na metade da prova quando o mar virou. O vento começou a soprar contra, sentia a correnteza jogando de volta para a Ilha e as ondas no rosto dificultavam a visão e a respiração. Concentrei nas braçadas e fui forçando meu caminho. O passeio tinha se tornado um desafio difícil de concluir. Não vim preparado para um grande desafio físico. Estava no espírito de um treino/passeio. Mas quem decide como vai ser a natação no mar não somos nós. Com 4 horas, comecei a me sentir muito cansado. Os braços já tinham dificuldade de manter o ritmo e parecia que por mais força que fizesse mal saia do lugar.
Em algum momento o George apareceu no barco de apoio e pulou do meu lado: vou te acompanhar, ele disse. Achei ótimo ter companhia, mas precisava concentrar todas as minhas forças em concluir a prova e não dava para preocupar em nadar em dupla. Já começava a considerar desistir. Sofri bastante na última hora. Tive que batalhar para que minha mente continuasse focada em concluir o desafio.
Depois de 5:35 cheguei na praia de Bora Bora. Cheguei com a sensação de uma batalha vencida. Terminei o desafio mais forte do que comecei. Essa travessia foi uma síntese do que a natação em águas abertas representa para mim: desafio e superação pessoal, contato profundo com o mar, compartilhamento da vida com pessoas especiais.
Obrigado George por organizar e possibilitar essa experiência única